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Intervenção Poética em Inhotim

Proposição  de arte  realizada com trabalhadores da Associação de Catadores do Vale do Paraopeba – ASCAVAP – Brumadinho- MG. Trabalho realizado em parceria com o Instituto de Arte Contemporânea de Inhotim à convite da Diretoria de Inclusão Social e Cidadania.

O principal objetivo dessa proposta  foi resgatar a dimensão emancipadora, crítica e sensível desses trabalhadores, através do contato com a arte. Propomos que com as sobras do mundo, aqui materializadas em resíduos sólidos descartados pela sociedade de consumo, que os participantes da oficina produzissem objetos carregados de um significado poético, lúdico e criativo, pensando suas práxis e instrumentos de trabalho a partir de uma ótica artística e estética, embebidos em formas criativas e despertando inúmeras possibilidades construtivas de intervenções e construções artísticas nos materiais coletados com linhas, bordados etc.
A oficina intitulada “Intervenção Poética em materiais coletados por catadores da ASCAVAP” foi ministrada em maio de 2012, na Semana de Museus, uma ação do Instituto Brasileiro de Museus e cujo tema foi “Museus em um mundo de Transformação – novos desafios, novas inspirações”.

 A culminância do trabalho foi uma intervenção artística com os materiais produzidos pelos participantes, formando uma grande teia na Capela de Santo Antônio, uma construção localizada dentro do Instituto de Arte Contemporânea de Inhotim e remanescente do antigo vilarejo que ali existia anteriormente à existência do museu.

Essa oficina integra os projetos e pesquisa que venho realizado ao longo da última década sobre as possibilidades de criação, resgate de memórias e histórias, o fortalecimento de autoestima e cidadania de grupos marginais através do resgate de práticas artesanais realizadas com linhas e agulhas, presentes no imaginário popular e no cotidiano do povo brasileiro, dialogando com a arte tradicional, popular e a arte contemporânea e seus inúmeros artistas que utilizam dessa temática em suas pesquisas conceituais e formais. Cabe ressaltar que esses projetos e pesquisa já foram realizados com mulheres idosas, rendeiras e bordadeiras tradicionais, alunos e alunas da educação básica e formação de professores em Artes Visuais, estes na Universidade Federal do Rio de Janeiro, instituição na qual sou docente e pesquisadora.

O trabalho realizado com catadores de resíduos sólidos foi de grande importância e aprendizagem, uma vez que os trabalhadores que compõem essa associação são antigos pacientes de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) do município de Brumadinho – MG, onde esse projeto de catação de materiais reciclados teve início como uma forma de geração de renda e trabalho. São, em sua maioria, portadores de sofrimento mental.

É importante compreendermos a função e a necessidade do oficio de catador de resíduos sólidos em nossa sociedade industrializada, que produz, consome e descarta objetos o tempo todo. Trata-se de refletir sobre a dimensão humana presente nesse oficio tão menosprezado pela sociedade contemporânea, uma práxis menor em que indivíduos são excluídos da participação social por serem miseráveis, tornando-se trabalhadores marginais. Uma gente que vive no meio de resíduos descartados pela sociedade que consome, sem parar noite e dia. Uma das questões levantadas desde o início foi a sobre a escolha dessa práxis: um indivíduo escolhe ser catador ou é escolhido pelas condições adversas e presentes na sociedade capitalista, que degenera trabalhadores e suas práticas criativas e necessárias a condição humana digna?

Vivemos em um momento de grandes discussões e projeções sobre o oficio de catador, tanto em meios políticos e sociais, como também em trabalhos realizados por cineastas, fotógrafos e artistas sobre o tema, como os filmes Estamira (2006), dirigido pelo fotógrafo e cineasta Marcos Prado; Lixo extraordinário (2011), com o artista Vik Muniz e direção de Lucy Walker, entre outras produções e projetos noticiados pela mídia e presentes em muitas cidades pelo Brasil e pelo mundo.

Os debates sobre a sustentabilidade e os rumos do planeta Terra frente à tamanha destruição e especulação sobre nossos recursos naturais e humanos nos colocam em contato com questões vitais de preservação e desenvolvimento humano, econômico e sustentável, onde grupos marginais e minorias gritam pela sua valorização e fortalecimento frente às barbáries da economia e sistema capitalista. O encontro de catadores de resíduos sólidos realizados na Cúpula da Terra, na ocasião da Rio+20, realizada na cidade no Rio de Janeiro no mês de junho de 2012, produziu uma carta em que trabalhadores organizados em sindicatos espalhados por todo o país reivindicam e lutam pelo reconhecimento de sua práxis, o fortalecimento desse ofício, a legislação, a não incineração dos resíduos em lixões e aterros, a valorização da sustentabilidade, a consciência e a verdade de que a mesma só é possível se incluirmos o homem, sobretudo os excluídos de uma participação mais ativa, e condições mais dignas de vida, mostrando-nos a organização e o direito de escolha, a luta e melhoras nas condições de uma determinada categoria de trabalhadores. Compreendemos que a inclusão social, o respeito e a valorização desse ofício, como um trabalho digno, são elementos-chave para o verdadeiro desenvolvimento ambiental e sustentável que nossa sociedade tanto discute, e temos que internalizar e praticar  nossa parcela como indivíduos conscientes e responsáveis pelo lixo que produzimos, e nos colocarmos como protagonistas de ações de reutilização, redução e reciclagem de lixo.

Diante de tantas questões sociais, políticas e educacionais presentes nesse tema, o trabalho realizado na ASCAVAP ao longo dos 4 dias de oficina teve como ânsia contribuir para promover o fortalecimento desses trabalhadores em suas militâncias e em seu labor diário. Ainda que de modo pontual, esperamos que nossas reflexões e proposições tenham despertado nesses indivíduos alguma transformação norteada pela dimensão lúdica, criativa, emancipadora e reflexiva presente na arte; aqui na arte realizada a partir de linhas, do ato de tecer.

 

 Fotos por Igor Moretti

 

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